A arte de decidir

Benedicto Dutra

Vivemos em um mundo de fragmentos. Imagine uma peça de fina porcelana, como um bule, por exemplo, artisticamente pintado e destinado ao preparo de um saboroso chá. Se uma pessoa, num acesso de descontrole emocional, jogar essa peça contra a parede, toda a delicadeza certamente irá se espatifar, restando apenas fragmentos desconexos, incapazes de reconstituírem a beleza destruída. Assim se passa com a vida e com as mentes humanas.

O ambiente corporativo também não é diferente disso. São tantos os apelos e tantas as pressões geradas interna e externamente, que as pessoas estão perdendo a capacidade de enxergar com clareza o mundo que as rodeia, e visualizar o que realmente querem e necessitam, para tomarem decisões acertadas.

Sun Tzu, general chinês que viveu no século IV AC, reconhecido como excelente estrategista por vencer inúmeras batalhas e autor do livro A Arte da Guerra, cujos ensinamentos vêm sendo aplicados atualmente no mundo dos negócios, preocupava-se em mostrar aos seus comandados o “caminho”, o Tao (conceito que só pode ser apreendido através da intuição.  É o Caminho da espontaneidade natural. É o modo de caminhar espontâneo que dá a necessária segurança para agir com convicção. Cada coisa tem o seu modo espontâneo e natural de ser. Tudo deve evoluir de acordo com as leis da natureza. São os desvios da naturalidade que produzem a dor e o sofrimento).

Quando o líder harmoniza o fragmentado querer dos comandados com a meta almejada, o caminho se torna bem conhecido e todos seguem na mesma direção. Desse modo não há dispersão dos esforços, uma vez que as potencialidades são aproveitadas integralmente e assim alcança-se a meta. Imagine que numa empresa uma importante decisão deva ser tomada. O Diretor conversa com o gerente da área e com os encarregados mais imediatos. A decisão é necessária e urgente, e precisam ser examinadas todas as possibilidades e riscos. Com as informações sobre a mesa, com a análise da situação, e com bom senso, a intuição poderá auxiliar mostrando logo o caminho a ser seguido. Alguém fala:  “é por aqui que temos de seguir”. Outro percebe o nexo e concorda. Mas há sempre os que resistem e não querem aceitar que a solução possa ser assim tão fácil, pois estão acostumados a procurar dificuldades para demonstrar capacitação e astúcia.

O fato é que nos desabituamos a raciocinar com clareza. Neste mundo fragmentado em que vivemos sobra pouco espaço para a visão de conjunto. Cada um percebe apenas uma parte, aquela com a qual mais se identifica e, com teimosia, não quer ver o que o outro tem para mostrar e embaça a visão. De repente fica tudo confuso e ninguém consegue mais achar o caminho, pois não tem claro para si a visão da meta. Muitas vezes as paixões pessoais se intrometem criando obstáculos desnecessários que acabam tolhendo a iniciativa. Outras vezes, aqueles que insistem na busca da solução com clareza e bom senso, são tidos como inconvenientes, e até mesmo ridicularizados para que se calem. Isso é muito comum nos ambientes de tomada de decisão, onde muitas vezes a força prevalece sobre a razão.

A atualidade nos oferece uma situação difícil que temos de enfrentar. Mas, num mundo em que os ecossistemas estão ameaçados, e tudo o mais se aproxima dos limites críticos, temos que por de lado os egocentrismos e perceber, enfim, que só o caminho da clareza e da simplicidade poderá nos levar a decidir por ações sábias e necessárias, sem o que será impossível contornar as turbulências.  É fundamental buscar a reconquista da normalidade para  neutralizar os eventos imprevistos e desarmoniosos que se sucedem progressivamente, resultantes de decisões imediatistas, tomadas sem a devida reflexão.

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